A EMERGÊNCIA DO KARATÉ-DO MODERNO

(Séc. XIX e XX)

 

Abel A. A. Figueiredo - 1994

A FORMA É FINITA, O CONTEÚDO, INFINITO.

INTRODUÇÃO

A Motricidade Humana ("virtualidade para a acção") é o objecto de estudo de muitas ciências (sociologia, psicologia, fisiologia, biomecânica, etc., etc.) e de muitos domínios de actividade e estudo onde, pela nossa especialidade, destacamos o Desporto. Estes domínios de actividade decorrem de um viver particular de civilizações e sociedades que desenvolveram e desenvolvem determinadas formas de pensar, sentir e agir, ou seja, determinadas formas de cultura.

O Desporto moderno nasce na segunda vaga e, naturalmente, encerra o código característico da atitude industrial. A inter-relação entre todos os princípios é evidente, levando, em última análise, à perca completa do verdadeiro sentido da prática desportiva. Sincronizaram-se os ritmos das multidões em assentos de estádios maximizados e maximizadores das prestações dos especializados artistas (por sua vez estandartizadores de determinados comportamentos), concentraram-se e centralizaram-se as informações em determinados órgãos de poder, etc.

Os Desportos de Combate do extremo oriente ("artes marciais") também foram assimilando, uns em maior grau do que outros, alguns daqueles princípios. Sincronizaram-se os tempos de aprendizagem de vários indivíduos concentrando-os no mesmo dojo; centralizou-se mais a gestão e realização de todo o processo no modelo "mestre"; maximizou-se a produção fazendo crescer o lucro do trabalho pela diminuição da relação mestre/alunos; estandartizaram-se mais os comportamentos, pois passámos a ter mais indivíduos a seguir o mesmo processo; etc.

Mas na sua origem os Desportos de Combate encerravam valores numa relação íntima e global com o seu protagonista e hoje, em coerência com o Paradigma Emergente, podem ser espaços que "privilegiam o conhecimento do 'eu' total integrado no grupo" (ALMADA, Fernando, 1992, p. 52).

Evidente se torna que sendo o Desporto uma actividade anti-neutral, e assim, um processo que dá um sentido ao desenvolvimento, surge com destaque o protagonista da gestão desse sentido. Por outro lado, se é fundamental a esse protagonista a compreensão da natureza do agente de desenvolvimento (o praticante), para uma eficaz organização do processo, também será essencial a compreensão do instrumento cultural de desenvolvimento: a actividade. Uma visão reducionista da actividade (ou actividades) só pode ser coerente com uma visão reducionista do seu protagonista; uma visão holística da actividade emerge em coerência da visão holística do Homem em transcendência (novo paradigma).

Sendo o Karaté um dos mais recentes Desportos de Combate e, curiosamente, com raízes históricas longínquas, vamos analisar algumas operações que transformaram o seu rumo permitindo-lhe a abertura ao mundo contemporâneo num determinado sentido.

Na nossa perspectiva, o desenvolvimento do Karaté moderno (séc. XX) assentou em três operações históricas características: o enraizamento autocrático numa escola/estilo, a massificação e expansão do Karaté e o espírito militarista da época (Guerra Chino-Japonesa; Guerra Russo-Japonesa e II Guerra Mundial).

Além das questões institucionais, a característica dada pelo enraizamento autocrático numa escola determinada faz um corte importante com a natureza naturalmente eclética do combate inerme.

A massificação do ensino do Karaté, após longos períodos de "segredo", fazem com que lancem hipóteses de que assentou numa visão reducionista da "arte de combate".

Além disso, o espírito militarista vivido particularmente nas épocas de massificação e expansão do Karaté marcam predominantemente as estratégias e os estilos de ensino.

Para este trabalho vamos centrar-nos essencialmente nas duas últimas questões, clarificando as operações elaboradas de forma a actualizar um maior grau de compreensão da actividade actual que é o Karaté.

 

O FIM DO SEGREDO

Da China a Okinawa

A nascitura dos desportos de combate decorreu de culturas medievais ou similares, e foi sendo impregnada de significados sociais sempre com a coerência epistémica decorrente. No entanto, com o Renascimento e mais recentemente, com a Revolução Industrial, a sua evolução foi lançando algumas propostas que hoje se apresentam conflituosas.

Kichi NAKAMOTO (8º dan Goju-Ryu de Okinawa) referiu-se recentemente (1994) ao Karaté como um "BUDO com origem em Okinawa" (Nakamoto, 1994). Entre nós, o Karaté costuma ser referido como uma "arte marcial com uma possibilidade de expressão desportiva em competição" (SAUVIN, Guy - Director Técnico da WUKO - em entrevista à Karaté-Bushido).

Naturalmente que a separação feita por SAUVIN é informalmente correcta ao diferenciar as possibilidades de expressão do Karaté, destacando a componente competitiva; mas torna-se formalmente incorrecta quando confunde a componente agonística e institucional do fenómeno desportivo actual com a mera expressão competitiva. A dimensão institucional e a dimensão agonística, num conceito holístico de desporto, podem ter diferentes graus de intensidade no fenómeno desportivo, ou seja, são verdadeiras dimensões variáveis a ter em conta na gestão do desporto, e, como tal, podem ser geridas perante diversos objectivos.

É certo que o desenvolvimento inicial do Karaté não está directamente ligado a regras competitivas institucionalizadas, mas sim a um confluir de valores sócio-culturais com métodos de combate desenvolvidos particularmente em Okinawa (Japão) sob várias influências, com destaque para os métodos chineses de luta inerme conhecidos e divulgados por Kung-Fu e para um movimento recente de querer tornar essa "arte de Okinawa" em BUDO.

Antes do século XIX a prática do Karaté era pouco difundida em Okinawa e mesmo entre quem o praticava, o segredo era cuidadosamente guardado, o que faz com que "no actual estado dos nossos conhecimentos, não seja possível ser rigoroso no que concerne aos personagens anteriores ao século XIX tais como Wanshu, Kûshankû (ou Kôshankin), Sakugawa, Yara, etc..." (TOKITSU, 1994, p. 30). A "documentação insuficiente das tradições do Karaté levam os seus estudiosos a basear as suas interpretações em informações fragmentares retiradas de alguns documentos históricos e de tradições orais" (NAGAMINE, 1976, p. 19).

Este último autor (Ibidem, p. 20) evidencia o facto de antes do séc. XVIII, num poema de Teijunsoku nascido em 1663 que referencia o te num contexto muito significativo:

Seja qual seja o teu nível de excelência na arte do te,
e nos teus empenhos escolares,
nada é mais importante do que o teu comportamento
e o teu humanismo observáveis na vida quotidiana.

Não nos parece grandemente significativo a clara existência, antes do sé. XVIII, uma "arte de combate" caracteristicamente Okinawense. Certamente que mesmo a existir, já teria sofrido várias influências culturais tal como o próprio Kung-fu Chinês terá sofrido influencias da Grécia, Roma, Índia, etc.

No séc. XVIII Kanga Sakugawa (1782-1865?), um dos mais antigos mestres com existência atestada torna-se a evidência clara da influência das escolas chinesas dos métodos de defesa pessoal. A sua prática ficou conhecida como To-te Sakugawa

No século XIX, enquanto Sôkon Matsumura (1809-1899) foi o primeiro a sistematizar um método que se vem a denominar de Shuri-té e que influencia notoriamente o Tomari-té, Kanryô Higaonna (1853-1915) desenvolve o outro ramo precursor das escolas actuais: o Naha-té. Se nos primeiros se notam influências determinantes dos métodos chineses do Norte (Pequim), com grandes afinidades às escolas do norte da China, destacando-se a escola xingyi-quan que é umas das três principais, no Naha-té, as influências são claramente dos métodos chineses do Sul (Fujien), nomeadamente a escola liu-qia-quan que é uma das cinco principais escolas de Shaolin-quan do Sul da China.

 

De Okinawa ao Japão

Por outro lado o surgimento da palavra "karaté-do" é indicador da influência da cultura Japonesa sobre o de Okinawa (Naha-té, Shuri-té e Tomari-té como centros principais). Este movimento dos Okinawenses quererem o Okinawa-té como um Budo, encerra, quanto a nós, uma riqueza operacional tão importante como a influência Chinesa.

Curiosamente TOKITSU na sua magnífica obra de 1994, evidencia a precocidade com que o Karaté se tornou um Budo, fazendo a apologia de que, ao contrário de outros Budo, o desenvolvimento do Karaté ainda não está suficientemente maduro.

TOKITSU (1994) coloca o Dr. Jigoro Kano (1860-1938) como personagem fundamental no desenvolvimento recente do Karaté. Em primeiro lugar, quando Gichin Funakoshi (1868-1957) é encarregado de ir a Kyoto fazer a apresentação do Karaté de Okinawa no âmbito de uma exposição nacional de educação física em 1921, está longe de pensar que não voltaria tão cedo a Okinawa; Jigoro Kano, que tinha funções importantes no ministério da educação, convida-o a fazer uma apresentação do Karaté no seu dojo de Judo em Tóquio: Kôdôkan (17 de Maio de 1921).

Segundo relatos de Shinkin Gima, originário de Okinawa e estudante universitário que participou nessa demonstração, após G. Funakoshi fazer a apresentação do Karaté de Okinawa e do itinerário de cada um deles, executou o Kata Kûshankû e, de seguida, Gima executou o Kata Naifanchi. Depois fizeram um exercício de combate convencional. No fim da demonstração Jigoro Kano disse a G. Funakoshi: "Penso que o karaté é uma arte marcial honrosa. Se a quiser difundir em Hondo [ilha central do Japão], conte com qualquer tipo de ajuda. Diga-me o que posso fazer por si". Pensa-se que foram estas palavras que encorajaram Funakoshi na divulgação do Karaté de Okinawa e que o fizeram decidir pela renuncia ao retorno a Okinawa (TOKITSU, 1994, pp. 61-64).

Mas a sua influência não se fica exclusivamente pelo Okinawense G. Funakoshi. Na sua primeira viagem a Okinawa em 1922, Jigoro Kano "faz um discurso sobre o budo japonês que provoca, nos adeptos de Okinawa, uma reflexão sobre a qualidade cultural da sua arte e a consciência da sua vocação" (TOKITSU, 1994, p.85). Em 1926, na sua segunda viagem a Okinawa, é preparada uma demonstração em sua honra e Chojun Miyagi (1888-1953) foi encarregado de a comentar. Miyagi desenvolve a partir daí uma atitude determinada em relação ao desenvolvimento do Karaté de Okinawa descrita num comentário referido a um dos seus discípulos (Niisato): "O Homem deve engrandecer o seu próprio ser pela prática do Budo, como o refere Mestre Kano. Quero tornar o Karaté digno de estar no nível do Budo pela sua qualidade [...]" (Ibidem).

Jigoro Kano chega a dizer a C. Miyagi e K. Mabuni (1889-1953): "Penso que do ponto de vista da educação física e moral, a arte de combate de Okinawa no futuro deverá ser desenvolvida em grande escala. Logo que obtenha um certo grau de difusão em Hondo (ilha principal do Japão), terá, naturalmente, uma hipótese de ser integrado no Butokukai. Gostaria que tivésseis em conta esta questão e que considerásseis a vossa arte do ponto de vista global do Japão" (Ibidem, p. 95).

Sendo membro da Câmara dos Pares, com responsabilidades no ministério da educação e tendo sido condecorado com a Ordem de Mérito que, instituída pelo governo Japonês, era uma das mais altas distinções do estado, Jigoro Kano tinha uma posição hierárquica bem superior à do mais alto dignitário de Okinawa. O seu interesse eclético pelo Karaté influenciou de forma marcante a direcção do seu desenvolvimento moderno que os Mestres de Okinawa passaram a protagonizar de forma coordenada. Houve, assim, uma influência "externa" que lançou um objectivo comum a todos eles: tornar a "arte de Okinawa" um Budo.

Fica-nos, deste modo, evidenciado o facto de o Karaté não ser um fenómeno isolado, mas sim um confluir de vários conhecimentos num determinado espaço-tempo.

A figura seguinte pretende representar esse movimento particular.

 

DESENVOLVIMENTO DO KARATÉ
(até ao séc. XX)

 

MASSIFICAÇÃO

Primeiro Momento de Massificação (Okinawa)

No que respeita à forma de gestão do treino, curiosamente, TOKITSU (1994) lança a mesma relação que vem na linha da que fizemos em 1987: a influência das metodologias de instrução militar nas aulas de Karaté.

Julgamos que Ankô Itosu (1830-1915), aluno de Matsumura e um dos mestres de G. Funakoshi, foi aqui um dos personagens mais importantes ao ser o protagonista fundamental da massificação do ensino de Karaté. Somos em crer que essa massificação acarretou novas metodologias de ensino. "A pedagogia de Itosu inspirou-se nos métodos de formação dos soldados que o Japão acabava de importar da Europa. Na escola um instrutor dirigia numerosos alunos gritando uma ordem para cada gesto a executar, o que não era habitual no ensino tradicional" (TOKITSU, 1994, p. 52).

Kentsû Yabu (1863-1937) foi um dos seus alunos que mais influência teve neste processo já que, além de ter sido um dos três alunos de Itosu que foram os únicos candidatos de Okinawa seleccionados para o exército Japonês, foi condecorado pelos seus valorosos feitos na Guerra contra a China que acabou em 1895 com a vitória Japonesa. Autêntico herói, em 1899 escreve um conjunto de artigos onde se insistia na importância da educação das crianças em escola primária e em 1901, três anos antes da Guerra Russo-Japonesa e num período de reforço militar, "Itosu e o seu grupo conseguem fazer adoptar o Karaté para a Educação Física na escola primária de Okinawa", ficando Itosu responsável por esse ensino. "Em 1905 o Karaté foi definitivamente adoptado como disciplina de Educação Física no liceu e na escola normal de Okinawa" (TOKITSU, 1994, p. 51), ficando K. Yabu como professor de Educação Física e de preparação militar na escola normal e um dos seus companheiros Chomo Hanashiro fica a fazer o mesmo no liceu. (Ibidem, p. 52).

A influência de K. Yabu, sargento do exército Japonês e, assim, com experiência nas metodologias militares de instrução de soldados, como um dos introdutores do Karaté no ensino escolar. Itosu, Yabu e Hanashiro tornam-se então os percursores do ensino massivo de estilo comando que marca a forma extremamente organizada dos treinos colectivos que ainda hoje se observa facilmente em alguns dojo de Karaté.

Os primeiros movimentos de massificação da prática do Karaté, pelo período característico, são movimentos claramente impregnados das metodologias de instrução militar, em perfeita coerência com o espírito militarista da época. Veja-se numa das instruções de Itosu de 1908:

O Karaté tem por objectivo principal tornar o corpo robusto como o aço e de fazer dos membros lanças e arpões. Naturalmente que ele cultiva uma força de vontade marcial. Assim, se o ensinarmos às crianças desde a idade da escola primária, terão ocasião de aplicar o karaté às outras artes logo que se tornem soldados. Como militares, poderão ser úteis à sociedade no futuro. O General Wellington disse a Napoleão I: 'a batalha de hoje pode ser ganha sobre o terreno da escola do nosso país'. Esta frase deve ser compreendida como uma máxima importante." (TOKITSU, 1994, p. 53).

Falta-nos saber se este tipo de argumentação foi utilizada apenas para ganhar terreno para o Karaté permanecer nas escolas ou, por convicção própria.

A consciência deste tipo de argumentos, completamente incoerentes com a actual episteme, é muito interessante principalmente para situarmos o que hoje se faz em alguns dojo.

Segundo Momento de Massificação (Japão)

Em 1917 o Karaté sai de Okinawa e penetra na ilha principal (Hondo) do Japão com uma demonstração no Butoku-den em Kyoto. No entanto, como já vimos, é a partir da demonstração de 1921 no Kodokan de Jigoro Kano (Tóquio) que sobre influência inicial de G. Funakoshi (1868-1957) se começa a expandir o Karaté na ilha principal do Japão. Em 1924 forma-se o primeiro clube universitário na Universidade de Keio.

A massificação característica desta primeira expansão pelo "continente" nipónico culmina com o reconhecimento oficial do Karaté como uma das artes marciais Japonesas e fundação do Ramo de Okinawa no Dai Nippon Butokukai em 1933, sendo em 1936 que o termo Karaté-do passa a ser oficialmente utilizado para designar a arte marcial nacional de Okinawa.

Além da influência clara sobre a promoção dos estilos de ensino e treino colectivos característicos da instrução militar, a expansão e massificação do Karaté, que da educação escolar de Okinawa passou à massificação generalizada no continente, fomentou o surgimento de outras formas de treino, dessacralizando a exclusividade das formas anteriores fundamentadas no Kata. Esta fundamentação pode-se ver claramente pelo testemunho de Shinkin Gima que entrou na escola normal de Okinawa em 1912 e que traduz precisões sobre o ensino de Yabu (TOKITSU, 1994, p. 57):

O meu professor de karaté na Escola Normal foi Mestre Yabu [...]. Ensinou-nos o karaté a partir do único Kata Naifanchi. Pratiquei-o durante cinco anos. O Mestre Itosu tinha já mais de 80 anos mas vinha sempre ver as aulas de Mestre Yabu... Mestre Yabu repetia-nos muitas vezes: "O essencial do karaté está contido no Naifanchi" e não ensinava os Pinan [...] Este Kata contém os três Naifanchi actuais mas não podemos fazer comparações já que são muito abreviados e bastante diferentes da forma clássica.

Principalmente nas Universidades nipónicas e na perspectiva de se conseguir testar o nível em que se estava perante um determinado processo de treino, sem que isso obrigasse necessariamente ao confronto "real", foram surgindo formas de Kumité cada vez mais elaborado (regulamentado).

Paralelamente, alguns praticantes dos próprios budo do Japão vão tendo influência no desenvolvimento do Karaté. Já esboçamos a clara influência do Judo de Jigoro Kano. Um outro personagem importante para a história do Karaté foi Hironori Ôtsuka (1892-1982) que grandemente marcado pela lógica do combate, principalmente influenciado pela sua prática de jujustu e do sabre japonês desde os cinco anos, após ano e meio de iniciar a prática de Karaté com G. Funakoshi, no sentido do aprofundamento dos seus conhecimentos de jujustu, sente que nos quinze Kata então ensinados por G. Funakoshi existiam elementos inaplicáveis em combate (TOKITSU, 1994, p.133).

Quando G. Funakoshi foi convidado por Jigoro Kano (fundador do Judo) para dar uma demonstração no dojo do palácio imperial, com H. Ôtsuka decidiu que, querendo afirmar o Karaté como BUDO, seria insuficiente mostrar apenas os Kata. Ôtsuka elaborou a partir do modelo de treino do jujutsu alguns Kata de combate que foram muito apreciados. Tornando-se Ôtsuka assistente no dojo de Funakoshi, vão-se desenvolvendo vários yakusoku-kumité ou exercícios convencionados de combate a partir do jujutsu.

Mas TOKITSU refere-nos que Ôtsuka não fica por aqui já que vai avançando para a elaboração no treino de Karaté de espaços e exercícios de combate livre importando modelos tanto do kendo como do boxe. Acaba por se separar de Funakoshi que o criticava expressamente: "Ele modifica o essencial do karaté trazendo demasiados elementos de jujutsu" (in: TOKITSU, 1994, p. 133). Nasceu então o Wado-ryu.

Terceiro Momento de Massificação (O Mundo)

A II Guerra Mundial vem destruir os principais dojo do Japão, interrompendo a sua evolução.

Uma primeira consequência foi o afastamento de muitos mestres da sua prática pública após a Guerra, o que faz emergir um grande conjunto de novos mestres. NAGAMINE (1976. p. 25), relativamente a esta situação particular refere-nos de forma pertinente o seguinte:

Dos muitos instrutores de Karaté no Japão durante os anos 30, apenas alguns - notavelmente Kokyu Konishi e Shinjun Otsuka - ainda se devotaram ao Karaté-do após a Guerra. As razões da falta de instrutores pode ser atribuída à breve história do Karaté no Japão, aos estragos causados pela Guerra, e há descontinuidade dos treinos de Karaté provocada pela Guerra.
Estas circunstâncias ajudaram a criar um novo fenómeno no Japão - o surgimento de 'instrutores instantâneos de Karaté'. Há muitos exemplos e episódios relacionados com este fenómeno [...]

O introdutor do Karaté na Europa evidenciou recentemente que após a pior época da história do Japão (a da humilhante derrota na II Guerra Mundial) "[...] os grandes mestres não poderiam revelar prematuramente o verdadeiro Karaté aos jovens 'mestres' japoneses. Inevitavelmente estes últimos te-los-iam revelado por ingenuidade, por 'honestidade', por interesse, por vaidade ou por estupidez [...]". Henri PLÉE (1994, p. 23) confirma ainda a tese do secretismo ao afirmar que é preciso ser "[...] bastante cego para recusar admitir que os Japoneses e os Chineses nos 'venderam' apenas um dos aspectos das suas Artes Marciais [...]: o Karaté espectáculo".

Assim, longe do "verdadeiro Karaté" dos "verdadeiros mestres" o pós-guerra criou condições para que surgissem novas formas de treino, consolidadas com perspectivas próximas do Kendo e do Jujutsu, onde os exercícios de pares são importantes e o jogo de combate assume bastante relevância. Foi-se acentuando o campo para o surgimento do fenómeno competitivo institucionalizado.

Em 1951 a JKA adopta a prática de Kumité e em 1957 acontecem os primeiros campeonatos japoneses de Karaté.

Por outro lado, a Guerra vem trazer o campo para a expansão mundial do Karaté. São os oficiais e soldados norte-americanos que, interessados pelos desportos de combate tradicionais do Japão, iniciam a aprendizagem do Karaté.

Em 1966 é fundada a EKU (European Karatedo Union), tendo lugar em Paris os primeiros campeonatos Europeus de Karaté. Em 1970, em Tóquio, funda-se a WUKO (World Union of Karatedo Organizations) e decorrem os primeiros campeonatos mundiais de Karaté. Inicia-se, pois, uma outra expansão mundial, baseada essencialmente na vertente competitiva institucionalizada, expansão essa que Portugal agarra formalmente em 1972 com a participação do CPK nos segundos campeonatos mundiais em Paris.

Estará assim, derradeiramente traçado o futuro do Karaté? Shigeru Egami (1912-1981) interrogou-se profundamente sobre o desenvolvimento do Karaté (in: TOKITSU, 1994, pp. 147-148):

É necessário afirmar que a situação actual no Karaté é de degradação completa. Face a esta situação, sinto uma certa responsabilidade. Na minha juventude, pensei e agi sobre a ideia directriz de me tornar eficaz face a uma situação real. Pratiquei então principalmente o combate livre que foi a forma original do actual combate de competição. Para tornar potentes os meus golpes de punhos, treinei-me no makiwara mais rijo. Afastei-me portanto do treino essencial. Não compreendo porque é que o Karaté continua hoje a evoluir na direcção errada que era a nossa já há muitas dezenas de anos, em oposição à direcção correcta. Se definirmos o karaté exclusivamente como uma competição desportiva, não terei mais nada a dizer. Mas não é tempo de reflectir para redefinir o que deverá ser o karaté?

 

CONCLUSÃO

Sem dúvida que a partir de Ankô Itosu o Karaté de Okinawa fica com outra vertente direccionadora: a massificação das suas virtualidades educativas. É o primeiro momento de saída do segredo que vai ser consolidado posteriormente com as intervenções de G. Funakoshi, C. Miyagi, K. Mabuni e H. Otsuka que, principalmente os três primeiros, sob estímulo evidente de Jigoro Kano, vão direccionando a arte de Okinawa para o Karaté-do (budo).

São estes movimentos expansivos e massificadores que aumentam as probabilidades de existirem movimentos inovadores como os de H. Otsuka, Yoshitaka Funakoshi, Shigeru Egami e os dos alunos universitários que iniciam um desenvolvimento característico das formas de treino mais preocupadas com o Kumité (combate livre ritualizado).

Após a II Guerra Mundial emerge assim o fenómeno competitivo institucionalizado mais característico na ilha principal do Japão do que de Okinawa. Aqui continua-se a viver o Karaté centrado na prática dos Kata e do endurecimento do corpo, sendo o Kumité tradicionalmente uma zona de grande secretismo.

Entre estes dois extremos, que futuro para o Karaté?

Julgamos que a institucionalização do fenómeno competitivo no Karaté veio abrir o secretismo da problemática do Combate Livre e da respectiva preparação (treino) para aumentar as probabilidades de vencer.

O espírito mistificador das questões acessórias, como nos tem alertado H. PLÉE (1994), ficou evidente quando vemos que a forma organizada e o estilo de comando que caracterizam uniformemente a maioria das aulas actuais de Karaté, prendem-se com os primeiros momentos massificadores de 1902, onde se propunham claros objectivos de preparação militar incrementados até o início da década de 40. Curiosamente, mesmo após a Guerra e com o desenvolvimento do fenómeno competitivo, poucos são os que fizeram o corte com os aspectos formais para penetrarem nos de conteúdo.

Somos em crer que se trata de uma nova era que, necessariamente, repetirá alguns ciclos históricos já esboçados anteriormente, mas num outro enquadramento, ou seja, numa nova episteme: a da transição do século XX para o XXI. Em analogia à operação fundamental do paradigma emergente, onde o conhecimento científico se vai tornando senso comum, diríamos que poderá ser o estímulo da problematização do Karaté espectáculo que nos fará (enquanto senso comum) ver o âmago do Karaté.

 

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